sábado, 21 de maio de 2011

O significado psicológico de alguns medos

Acho superinteressante estudar os motivos psicológicos pelos quais tememos alguma coisa. Então, resolvi abordar o significado de alguns medos aqui no blog.

É importante lembrar que a Psicologia não é uma ciência exata e que nem sempre o significado psicológico de alguma fobia necessariamente se relaciona com a sua vida. Porém, existem psicólogos que a partir de sua experiência em Psicologia Clínica conseguem perceber que algo se repete no que se refere aos comportamento ou personalidade daquele que teme algo específico. É o caso da autora Lourdes Possato em seu livro "Medos, Fobias e Pânico - Aprenda a lidar com estas emoções" da editora Lúmem. Para quem se interessa pelo assunto recomendo essa obra. Os medos que abordarei aqui são baseados no estudo de Lourdes.



Medo de ficar só ou de estar só

De acordo com Lourdes temos que refletir sobre por que é tão difícil para nós estarmos sós e devemos nos perguntar: "O que é difícil neste estado?" "Do que você sentirá falta?"

Através de perguntas como estas podemos entender que na verdade o medo de ficar só é um reflexo de algo anterior: o autoabandono. Eu também compartilho desta idéia de Lourdes. Quando tememos muito ficarmos sozinhos na verdade isto aponta para o fato de que de alguma forma não estamos fazendo por nós o que desejamos que o outro faça. Temos a esperança de que o outro nos suprirá com algo que necessitamos, mas na verdade somos nós que devemos atender as nossas necessidades e não colocarmos "nos ombros" dos outros tal  responsabilidade.

Tudo o que você mais gosta que o outro faça por você quando está em um relacionamento é exatamente o que você não faz por você mesmo. E enquanto não olhar para dentro de si e descobrir suas reais necessidades e conseguir satisfazê-las, este medo continuará te assombrando.

Não estou dizendo que devemos ficar sós ou que relacionamentos não são bons, muito pelo contrário. O que quero mostrar é que relacionamentos são ótimos para nosso desenvolvimento pessoal, porém quando se torna uma obsessão "ter alguém" ou se teme desesperadamente ficar só, isto quer dizer que você não está tendo êxito em suprir suas próprias necessidades e tem a ilusão de que o outro pode suprí-la. Na verdade o outro pode te ajudar nessa caminhada, mas só você pode fazer isto por você mesmo.

Se você está sozinho e está com medo da solidão, comece a se perguntar primeiro: o que você gosta tanto que o outro te faça? de que você sente falta?

O segundo passo é fazer isto por você mesmo. Exemplo: se eu temo ficar só porque tenho medo de não ter alguém ao meu lado nos momentos difícies, isto indica que você não fica ao seu lado no momento das dificuldades, precisa do outro como bengala, não sente-se capaz de superar as dificuldades através de seu esforço. É o primeiro a se colocar para baixo, se martirizar por não ter feito isto ou aquilo, ou seja, não ficar ao seu lado, se dando força e se apoiando.

Seja este ou outro motivo que você teme a solidão, não deixe de fazer este exercício de autoanálise e principalmente começar a fazer por você o que espera que o outro fará.

domingo, 8 de maio de 2011

A superficialidade das relações na era da internet: quantidade é qualidade?

Essa semana estive pensando numa queixa que sempre escuto, seja dentro ou fora do consultório, sobre como as pessoas podem se sentir sós mesmo em meio a uma multidão.

Penso que a internet e suas redes sociais promoveram um fenômeno interessante: triplicamos nossa quantidade de amigos, mas a quantidade de relações nem sempre quer dizer qualidade das mesmas, considerando que a grande maioria delas são superficiais.

Relações superficiais são aquelas que estabelecemos algum vínculo com a pessoa, mas se precisarmos contar com ela, não será possível, pois não criamos a intimidade necessária para nos sentirmos à vontade para isso.

Dependendo da pessoa, a internet promove afastamento ao invés de proximidade. Para aqueles que sabem utilizá-la de modo a ampliar o círculo social e conseguem transformar "amigos virtuais" em "amigos reais", ela é uma ótima ferramenta. Porém, para aqueles que possuem dificuldade de se autorevelarem, isto é, falar sobre seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, sobre suas dificuldades e impasses, a internet acaba  promovendo afastamento, pois estas pessoas não são estimuladas a travar relações reais e perdem bastante com isso.

É somente numa relação não-virtual que aprendemos a lidar com o outro, com a diversidade, porque uma relação é sempre um processo de construção, nem sempre fácil, existindo "altos e baixos", onde o indivíduo é colocado à prova, aprendendo a entender quando é hora de ceder ou quando é hora de manter sua posição, quando é hora de reconhecer que errou, entre outras questões que só podem vir à tona numa relação real.

Uma vez escutei uma frase que infelizmente não me recordo do autor, mas dizia algo assim: "é somente na relação que a gente se humaniza". Resumindo: é somente na relação que a gente se constrói, é no contato com o outro que eu posso entender melhor quem sou eu, através dos feedbecks recebidos das pessoas que convivem conosco e que podem nos dar um parâmetro de quem somos.

Então, nunca esqueçam que quantidade nem sempre é sinônimo de qualidade, e se você se sente só mesmo com muitos amigos (sejam virtuais ou não) pode ser um sinal de alerta de que talvez você esteja fugindo de relações realmente autênticas.

domingo, 1 de maio de 2011

O medo de morrer x medo de viver

Tem uma autor que  admiro muitíssimo: Irvin Yallom. Ele é um psicólogo existencial que fala da angústia de morte de maneira sublime e tentarei passar para vocês o que seria a angústia de morte.

Todos nós tememos a morte e lidamos com ela desde cedo. Quando crianças, quando uma folha amarela cai da árvore, um bichinho de estimação morre ou até mesmo quando um ente querido falece, tomamos consciência de nossa mortalidade.

O problema começa quando na vida adulta ao negarmos nosso medo da morte ele surge de forma disfarçada, como por exemplo, através do Transtorno do Pânico. A angústia de morte também pode aparecer quando ficamos tristes com a proximidade de nosso aniversário e não entendemos o motivo, numa ansiedade que nos acomete sem um motivo aparente, entre outras formas.

Irvin, em seu livro "De frente para o sol", cita um trecho de uma obra de Nietzsche que explica de maneira belíssima uma das causas que pode estar relacionada ao nosso medo de morrer, quando este é muito forte. Nesta poesia fica claro que o medo exacerbado da morte pode ser um reflexo de uma vida que não está sendo vivida de forma plena, então a idéia de morte para algumas pessoas torna-se insuportável, pois ela sente que poderia estar vivendo uma vida que a satisfizesse mais, porém fica paralisada e sem conseguir viver essa vida.

Nietzche, em "Assim falava Zaratrusta" coloca:

" E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em sua mais solitária solidão e lhe dissesse: "Esta vida assim como tu a vives agora, e como a viveste, terás de vivê-la ainda mais uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizívelmente pequeno e de grande em sua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequencia [...]


Não te lançarias ao chão e rangeria os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falastes assim? 
Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tú és um Deus e nunca ouvi nada mais divino!"


Então, o medo exagerado do morrer seria para Irvin um reflexo de uma vida mal vivida, isto é, uma vida onde as pessoas estão mais preocupadas em satisfazer as necessidades dos outros do que as suas. Uma vida onde se faz tudo "certinho", tudo dentro do script, mas na verdade esta pessoa gostaria de realizar outras coisas em sua passagem na Terra, mas se paralisa diante do medo de ser ela mesma, do que os outros vão falar, etc.


E você? Acharia que a entidade da obra de Nietzsche seria um demônio ou um Deus? O que anda fazendo de sua existência? Está com medo de viver da forma que gostaria?